Bem Vindo ao Beco dos Poetas !!!

Claudio Daniel, pseudônimo de Claudio Alexandre
de Barros Teixeira, poeta, tradutor e ensaísta, nasceu em São Paulo
(SP), em 1962. Publicou os livros de poesia Sutra (1992) Yumê
(1999) e Sombra do leopardo (2001) Publicou e participa de várias
antologias, como "Jardim de Camaleões" e "Na Virada do Século,
Poesia de Invenção no Brasil" (Landy, 2002), organizada em parceria
com Frederico Barbosa, traduziu grandes nomes da
literatura,organizou a Galáxia Barroca, Encontro de Poetas
Latino-Americano...Enfim, com um perfil poético invejável, ele fala
de sua extensa carreira literária para o Beco dos Poetas &
Escritores.
1-Você acredita que o maior crítico literário é o tempo?
Sem
dúvida. Baudelaire e Flaubert foram considerados autores imorais em
sua época, tiveram obras censuradas, foram atacados por críticos de
prestígio, como Saint-Beuve. Flaubert chegou a ser processado
judicialmente, pela suposta obscenidade do romance Madame Bovary.
No Brasil, críticos do prestígio de Sílvio Romero e Érico Veríssimo
fizeram pouco caso de autores como Machado de Assis e Cruz e Sousa,
e Wilson Martins colocou em segundo plano a obra de Guimarães Rosa,
privilegiando Mário Palmério. Na década de 1930, o grande poeta
brasileiro, segundo a crítica, não era Drummond nem Murilo Mendes,
mas Augusto Frederico Schmidt, que hoje ninguém lê. A Poesia
Concreta foi desprezada por muito tempo pela universidade e pela
mídia, era chamada de “o rock and roll da poesia” pela revista O
Cruzeiro. O que acontece na época atual, além da miopia crônica dos
críticos da imprensa diária, que não têm formação teórica e senso
estético para julgarem obras inovadoras, é uma tendência a se
privilegiar amigos e grupos que ocupam posições de poder e a
boicotar tendências estéticas experimentais, que desafiam os
cânones apodrecidos. Com o passar do tempo, porém, tudo isso ficará
para trás, e o que sobreviverá é a qualidade e não a bajulação. O
tempo é o melhor dos críticos literários, como já disse uma vez
Frederico Barbosa, porque não é suscetível a elogios, caprichos e
sinecuras.
2- Como tradutor como foi a publicação de Jardim de Camaleões?
Recebi um
convite de Samuel León, editor da Iluminuras, para organizar e
traduzir uma antologia de autores latino-americanos da tendência
conhecida como neobarroca, inaugurada na década de 1940 pelo cubano
Lezama Lima e que atingiria o seu ponto de ebulição na década de
1970, com a obra de autores seminais como o argentino Nestor
Perlongher, o uruguaio Roberto Echavarren e os cubanos Severo
Sarduy e José Kozer, entre outros. Recebi o convite em 2000 e o
livro foi publicado em 2004, com prefácio de Haroldo de Campos.
Reuni poetas de diferentes gerações, desde os fundadores históricos
até nomes bem recentes, que estrearam em livro na década de 1990,
como o argentino Reynaldo Jiménez e o uruguaio Victor Sosa, além de
incluir cinco autores brasileiros: Haroldo de Campos, Paulo
Leminski, Horácio Costa, Wilson Bueno e Josely Vianna Baptista.
Traduzir esses poetas não foi tarefa fácil, pelo uso excessivo de
arcaísmos, neologismos, palavras de uso regional, citações em
sânscrito e chinês, metáforas rebuscadas, entre outras
dificuldades, mas fiquei satisfeito com o resultado, que foi o
ponto de partida de outros trabalhos de maior fôlego que fiz no
campo da tradução, como a antologia Íbis amarelo sobre fundo negro,
com poemas de José Kozer, que saiu pela Travessa dos
Editores.
3- O que é mais importante traduzir ou escrever e publicar sua
própria poesia?
Acredito
que não existe uma resposta definitiva para essa pergunta. De todo
modo, sempre que traduzo, aprendo alguma coisa com o poema na
língua original, e esse diálogo criativo acaba enriquecendo a minha
própria poesia. De modo similar, meu trabalho poético deixa-me mais
à vontade para traduzir, pois sou atento não apenas ao sentido
literal, sobretudo à intenção estética do poeta. Uma boa tradução,
a meu ver, é a que consegue se equilibrar de forma harmoniosa entre
o som e o sentido.
4- Existe diferença no processo de criação de
contos e no de uma poesia, como demonstra isso nas suas obras?
Para um autor que escreve
apenas prosa de ficção, com certeza, há diferenças no processo
criativo, pois o romancista, por exemplo, nem sempre está atento ao
som de cada palavra de uma linha que escreve, pois está preocupado
com a construção da narrativa. Já o poeta, quando escreve prosa,
usa o mesmo rigor e o mesmo processo criativo aplicados em seus
poemas, o que explica porque o livro de ficção de um poeta pode
levar cinco anos para ficar pronto, como aconteceu com o meu
Romanceiro de Dona Virgo. Para o poeta, não há conto, nem poema,
nem romance, há imagens, sonoridades, invenção sintática e
metafórica, enfim, há linguagem.
5- Como jornalista e poeta como descreve a poesia concreta e a
poesia neobarroca nos dia de hoje?
São
movimentos que já pertencem à história literária. A poesia concreta
teve desdobramentos nas experiências que são feitas hoje por
autores como Arnaldo Antunes e Ernesto de Melo e Castro nas mídias
eletrônicas, e a poesia neobarroca, apesar de ter surgido há mais
de meio século, ainda tem hoje autores criativos (e não epígonos),
inclusive jovens brasileiros como Eduardo Jorge e Adriana
Zapparoli.
6- Você já participou de várias Antologias, já pensou em fazer uma
de sua obra poética, como seria?
O livro
Figuras Metálicas – Travessia Poética(1983-2003), que foi publicado
em 2004 pela editora Perspectiva, na coleção Signos,.dirigida por
Augusto de Campos, é uma antologia dos meus quatro primeiros livros
de poesia. É difícil para mim falar de meu próprio trabalho
poético, então prefiro citar a “orelha” do livro, assinada por José
Arnaldo Villar: “Claudio Daniel apresenta em Figuras Metálicas o
registro de sua ‘travessia poética’, percorrida ao longo de vinte
anos de labor criativo. Comparecem aqui poemas escritos entre 1983
e 2003, incluídos nos livros Sutra, Yumê e A Sombra do Leopardo,
mais o inédito Pequenas aniquilações. Este conjunto de composições
revela um autor com voz própria, singular e inquieta. Dialogando
com a Poesia Concreta, o Neobarroco, o Simbolismo e o Oriente,
realizou uma fusão onde são evidentes as imagens sonoras, que não
raro perturbam ou dissolvem o sentido aparente em curiosas
associações de termos (“Água-de-serpente para esquecer jamais esta
música de peles”). Os poemas são reunidos em ciclos ou séries, como
se fossem peças de um quebra-cabeças ou verbetes de uma
enciclopédia imaginária. Aqui, as palavras não se curvam à função
passiva de apenas retratar ou traduzir o mundo das coisas, mas
constituem uma realidade própria, obsessiva. Cada poema é um
organismo, com rigorosa concepção estrutural, que distancia-se da
lógica linear, discursiva, por meio da elipse, da analogia e da
colagem semântica. Este caminho de desfiguração dos vocábulos
mimetiza a perda de sentido dos valores culturais em nossa época,
regida pela loucura do mercado e da mídia, ao mesmo tempo que
aponta para a criação de outras realidades, por meio da
poesia.”
7-A publicação de poesia no Brasil parece ter
aumentado e uma nova geração de poetas vem surgindo. Você acompanha
essa produção?
Há muitos autores
interessantes; para citar poucos nomes: Virna Teixeira, André Dick,
Eduardo Jorge, Simone Homem de Mello, Leonardo Gandolfi, Adriana
Zapparoli, Delmo Montenegro. Sairá em breve, pela Lumme Editor, uma
antologia organizada por mim, intitulada Todo começo é
involuntário: a poesia brasileira no início do século
21.
8- Nessa nova geração de poetas percebe alguma característica
marcante?
A diversidade: há autores
minimalistas, neobarrocos, poetas que trabalham com as mídias
eletrônicas ou com a etnopoesia, afastando-se da herança já
esgotada de Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade – grandes
poetas, mas que pertencem a outro século, e que precisam ser lidos
hoje sem a intenção da cópia. É preciso buscar outros temas, outras
vivências, outras linguagens.
9- Você faz pesquisas sobre poesia africana de língua portuguesa,
um novo estilo literário vem aí ?
Tenho pesquisado
especialmente a poesia angolana, e um primeiro resultado desse
trabalho é a antologia Ovi-Sungo, Treze Poetas de Angola, que saiu
há poucos anos pela Lumme Editor. Não sei dizer se surgirá um novo
estilo daí, mesmo porque a poesia angolana é muito diversificada,
há desde autores que trabalham com a poesia visual e multimídia até
autores que reelaboram os temas folclóricos e outros que investem
numa escrita hermética, próxima ao barroco, para citar apenas
alguns casos. Gosto muito de autores como Arlindo Barbeitos, David
Mestre, João Maimona, Abreu Paxe, que têm dicções fortes e
personalíssimas.

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© 2012 Criado por Marcio Marcelo Nascimento Sena.