
PARTIDA
Quem parte, leva na bagagem,
Um pouco de flor, um pouco de dor,
Um oceano de saudade,
Um arco - ires sem cor.
Quem fica, morre um pouco,
Asperge no vento águas de sal,
Perde o pigmento dos sonhos,
Não sente o cheiro do amanhecer.
Quem crê que a vida é rio,
Que em cada curva há novas águas,
E que essas águas se movimentam,
Não morre no mar... de solidão.
Luz Miranda
Publicado no Recanto das Letras em 17/11/2010
Código do texto: T2620432

O SOM DO SILÊNCIO
Esse murmúrio que ouço
Nas horas mortas da noite,
É a voz do rio que canta,
É a relva verde que dança,
Ao som do vento que uiva.
É o balé lúdico das gotas de orvalho
Que rolam no tobogã das folhas.
É a florzinha que estréia
Embalada nos braços da poesia.
É a folha nova que nasce
No lugar da velha que cai.
Nada nesse momento funciona,
Toda vida estaciona,
Só a natureza inspeciona,
Esse sagrado ritual.
Luz Miranda
Publicado no Recanto das Letras em 14/10/2010
Código do texto: T2555902
UM GOSTO TATUADO NA BOCA
Quando vejo minha flor preferida, não escondo meu encanto e fascinação, me trás tantas lembranças da infância... não cansava de olhar seus ramos trepadeiras nas cercas que separavam minha casa, da horta e do rio. Olhava suas cobrinhas roxo - batata com listinhas brancas e ao redor, pétalas macias, vermelhas recheadas com branco talco. O perfume , ai meu Deus! De longe sentia, o néctar então? Nem se fala! Chegava sempre antes para ver o tal único inseto que a polinizava, sei que o docinho ficava ali , nas bolinhas dos sinos expostos, sem nenhuma proteção. Ficava olhando aquela flor aberta e pensava, olhando para o botão: - como cabe tantas formas dentro desse botão? Por que as outras são formadas de pétalas e miolinho e esta tem tanta coisa? Não me importava nem pensava que tudo aquilo resultava num fruto deliciosamente ácido, liso e amarelo. Preferia a flor. A amava tanto que tinha pena de deixá-la ali, cortava seu galhinho com os dentes cuidadosamente e a carregava comigo, num passeio curto e lento. Caminhava sobre as folhas secas das árvores, de manga espada e peito de moça, do quintal que dava no rio, no fundo do quintal do papai. De cócoras, na margem do rio, sobre uma pedra grande, segurava firme o cabinho da flor e a mergulhava nas águas, ainda limpas e correntes, das margens do rio. Quando a água beijava a flor, as pétalas ficavam pratas, e de uma a uma eram amputadas e devoradas pela minha boca, sem nenhuma culpa. Ficava ali, já sentada na pedra, totalmente alheia. Aquele momento era um ritual prioritário, até ouvir a voz com sotaque italiano de meu pai - vai pra casa menina, deixa o fruto nascer, você comeu a flor da paixão de Cristo... Só hoje entendo o que ele queria dizer, considerada flor da paixão devido a sua forma: coroa de espinhos, cinco chagas, três pregos com que Jesus foi crucificado. De volta para casa, olhava e tocava as cobrinhas brancas e roxas que sobravam da flor, poupadas por medo de comê-las. Quando dava a noite, sonhava com o pé de maracujá, crescendo na cerca, e ao amanhecer, entristecia quando via a flor ainda dormindo, no casulo verde. Hoje , me satisfaço com o gosto das pétalas da flor de maracujá, tatuadas na minha boca.
Luz Miranda
out/2010
POEMINHA INFANTIL
O NAMORADO DA LUA
A lua brota redonda
Numa redoma de prata,
Espalha um tapete luzente
Sobre a terra embaçada.
Estrelinhas aplaudem o sol
Apoiando o grande gesto.
E o sol de longe chora
Por tamanho manifesto.
A lua de tão cheia
Explode em gargalhadas,
Implora ao sol clemência
Que não a deixe por nada.
O sol envaidecido
E bastante emocionado,
Dá uma piscada e grita
Demorouuu...quero ser seu namorado.
Luz Miranda
RIO
Espumas do meio dia
Brumas ao redor dos pés,
Água levando ondas
Ondas lavando pés.
Areias do rio pequeno
Berço para os meus pés,
Em círculos ondinhas frias
Cosquinhas sob meus pés.
Menina nadava fundo
Com braços e até os pés,
Mas hoje só vejo água
Na palma dos secos pés.
Luz Miranda
Publicado no Recanto das Letras em 09/09/2010
Código do texto: T2488619
ESTAÇÃO PRIMEIRA
Depois de uma longa espera,
Vem vindo a primavera.
Toda bacana,
Rasgando seda,
Furando a fila,
Da fila indiana.
E o inverno grita:
Primeiro os ipês,
os amarelos,
Os lilases,
Por último os vermelhos.
Agora, sem demora as outras!
Se cuidem, se produzem
e vê se não se atrasem...
e apressadas as flores, sem cores
Se ajeitam,
Se enfeitam,
Se lambuzam
De néctar de jambo branco.
Se banham,
De luzes
De sais,
De cores,
Dis tintas:
Amarelo gema do girassol,
Vermelho sangue de Cristo,
Azul marinho dos mantos,
Vinho tinto das taças,
Rosa bebê das meninas,
Laranja sol das manhãs,
Branco talco dos lençóis...
E o inverno se retira,
cansado, do palco
Dando lugar
A diva das estações.
Luz Miranda
Publicado no Recanto das Letras em 12/09/2010
Código do texto: T2493707
FLOR MULHER
Capto no meu silêncio,
Um grito no amanhecer.
Desperto os lençóis,
Bordados de girassóis.
Num movimento tímido,
Me seguem submissos,
Abraçando meu corpo,
Beijando sinais
Da festa da noite.
Olho lá fora e vejo,
Um sol recém nascido,
Espalhando raios,
Aquecendo corações,
Lambendo flores Sonolentas
Molhadas de orvalho.
Olho por um tempo
E nesse meio tempo,
Uma flor se abre
E é coberta pelos lençóis.
Luz Miranda
Publicado no Recanto das Letras em 14/09/2010
Código do texto: T2497674
Este poema, foi produzido para o meu pai, embora tenha passado o dia... sei que jamais o lerá, mas tenho certeza que se emocionaria ao fazê-lo. Uma noite de beijos.
O ALFAIATE
Mãos delicadas,
de fada,
Oficio calado ,
de fato,
Dedos finos,
sem calos,
Na conclusão do dedo,
um dedal,
Pontos retos,
na retidão das linhas,
das mãos,
Caminhos bordados,
Em ponto agulha,
Cada ponto, subtrai um tempo,
Que desliza, no alinhavo de passos
Do caminho central do tecido.
Hoje esquecido,
No silêncio do armário,
Novo percurso, mãos trêmulas
Passos roucos, voz frouxa,
Trouxa de restos de tecidos,
Esquecidos na disfunção
de um cérebro morto.
Mas... tecidos na linha de um tempo
jamais esquecido.
Luz Miranda
Publicado no Recanto das Letras em 19/08/2010
Código do texto: T2447309
POEMA (...)
A tela em branco espera
Mais uma colheita de versos,
Mas as palavras mesclam desordenadas
E nesse desalinho de letras
Surge a palavra “solidão”
E com ela...
Um poema vazio .
Luz Miranda
CONTAGEM VÃ
Avaliei meus passos
De um a um,
Diagnostiquei pegadas dúbias
Na incerteza das decisões.
Revi meus valores
De dois em dois,
Reinventei meu caminho
Abrindo fendas virgens
Desbravando atalhos vários
Buscando restos de um caminho
Que não levou a lugar nenhum.
Revi então meus amores
E na seqüência da desordem
Só contei
De zero a um.
Luz Miranda
RETIRANTE
No escuro raro da manhã,
O azul sanhaço do céu
Retira seu manto virginal
Dando espaço ao grito do trovão
E seu eco,
Explode prata.
Luz Miranda
ESTRÉIA
Uma menina nasce
Na nona manhã de abril.
Foi tragada lentamente
Por bocas ocultas
Silenciosas e mornas.
Submergiu em círculos
Até alcançar o colo das mãos
Purpúreas e firmes.
Assim estreou no mundo:
Envolta num cordel de luz
Condecorada com versos inéditos
Garantidos nas rimas brancas
No ápice da liberdade.
Luz Miranda
Publicado no Recanto das Letras em 15/07/2010
Código do texto: T2380023
RETALHOS DE NÓS
Pela infinita vez,
Vi retalhos de amor,
Nos nossos lençóis.
Senti o peso da saudade debruçada,
Na janela do meu corpo.
Vi gotas indômitas de orvalhos,
Caídas dos olhos do inverno.
Teci então, meu agasalho,
Com restinhos de retalhos,
Que sobrou de nós.
Luz Miranda
ESPELHO D`ÁGUA
A noite é tão escura,
A noite cobre a lua,
Com nuvem de carvão.
O vento vela a noite,
O vento dá boa noite,
A nuvem de sabão.
O espaço todo abre,
O rio vira céu,
E a lua vira chão.
Luz Miranda
PASSAGEM
Na pequenez dos passos,
O limite.
Na acidez dos versos,
A dor.
No nimbo dos olhos,
A saudade.
Na lágrima indômita,
A lembrança.
Na espera ilimitada,
O perdão.
No grito de amor,
O eco.
No grito,
A volta.
Na volta,
O cAoS.
Luz Miranda

MÃE
Mãezinha,
fada minha,
saudade de tuas mãos,
cobrindo as minhas.
Teus passos, são meus passos,
não tocam mais o solo,
carrego-a no colo.
Tua voz, é a minha voz,
teu falar , é o meu pensar,
cérebro confuso, todo turno,
confunde teu espaço,
com meu abraço.
Teu olhar, é o meu olhar,
mesmo brilho,
brilha em mim,
mesma promessa,
de um amor sem fim.
Luz Miranda
NÚPCIAS
Quando a vida pare o amor
As trevas ficam cegas
Gritam fracas e vencidas
Ensurdecendo o tempo
E fechando as feridas.
No mesmo instante
Não tão distante
O vento sopra os dissabores
Cala os uivos da boca da noite
Modela a face alegre da terra...
Cores e luzes se abraçam,
Pássaros e flores se beijam
Sol e lua se tocam
Festejando as núpcias
Da vida e do amor.
Luz Miranda
ONDE O VERSO FINDA
Não apresente regras para os meus sentimentos,
Não imponha normas para a minha razão,
Deixe que estabeleço sonhos para a minha emoção,
Não venha dizer onde o verso finda e qual é a rima,
Não invente palavras para as minhas reticências...
Nada sei dos limites da minha fronteira,
A profundidade da minha idade,
A largura do rio que atravesso.
Só sei que a noite termina,
Que a semente morta germina,
Que o sono me rouba a lua, tão sua,
Até me deixar vazia, nua...
Luz Miranda
VERSOS SEM NEXO
Não procure luz no meu eclipse,
não tateie brilho no meu vazio,
minha alma fez-se noite,
vagueio no meu escuro,
desconhecido e obscuro,
faço versos sem nexo,
levito no meu devaneio,
de incertezas e solidão,
me encontro só,
no meu porto de águas claras,
no mergulho de frias almas.
Luz Miranda
SEGREDOS DA ALMA
Tempestade,
Sol da tarde,
Areia branca,
Mar que encanta,
Vento em ondas,
Nos pelos, nos cabelos,
Raios de luz, pés nus,
Pegadas leves,
Dunas breves,
Belas brumas que espuma,
No sal dos olhos meus,
Que o vento seca,
Segredos da alma, gêmea,
Que deságua em nós.
Luz Miranda
ENDECHA
Recito meus versos tristes
Dispersos na madrugada.
Ouço minha voz cansada
Vagando no breu do quarto,
As quatro da manhã.
Amanhã talvez... quem sabe?
Te entrego, meu ego,
Meu amor e a agonia
Que embalam meus versos sonolentos,
No universo tétrico do meu dia.
Luz Miranda
SONETO DO MENSTRUAR DAS NUVENS
O vento sopra o ar de sua graça
Que anuncia e arrepia pele e pensamento
Rajadas rasantes de seres no momento
Ruídos brancos do voar de uma garça.
Uma nuvem que menstrua cortante
Sangrando árvores, flores e até o vento
Chuva que chora um triste lamento
Tudo se curva num ritual constante.
Gotas que cortam o rio e o penetra
Num frio orgasmo que só nele infesta
Nas fendas que se abrem numa festa.
Pássaros voam sem rumo e sem laço
Deixando o vento os transpor pro espaço
Enquanto o rio goza possuído pela chuva.
Luz Miranda
FASES
Nasci na nascente do rio,
Emergi na emergência da flor da água,
Deslizei no deslize da correnteza,
Flutuei no espelho louco da lua nova,
Levada como folha apática e torta.
Curvei na curva da esquina solitária,
Das margens solidárias e caladas,
Afogada no afago da noite,
Beijada no canto da face,
Em todas as fases
Prateadas da lua velha,
Na nudez do meu corpo teu.
Luz Miranda
ALMA PARTIDA
Minha alma se perdeu,
nos mistérios do universo,
confundindo as raízes dos meus versos,
desafiando o inverso da emoção,
levitando num espaço sem chão.
Meu corpo espera, com calma...
a junção da matéria e alma,
e o nascer de uma nova canção.
Luz Miranda
NÚCLEO DO VINHO
Dois rios desfilam mágicos
Deslizam no relevo do meu rosto
Passam tão breves tuas águas
Sem tempo sequer
De levar minhas mágoas
Afogadas no resto de vinho
Esquecidas no fundo da taça.
Espero a passagem memorável
De águas novas, doces e mansas
Trazendo lembranças tantas
Regadas com vinho em mim.
Luz Miranda
http://images.orkut.com/orkut/photos/OgAAANk-MmAi-mD8HgGeNfKq5BoYBWmO-wx0-W4TgcdviUoFPcvCoRKPxwbq-m04PY9myDkKXhJph7YxscEl1_ECQm0Am1T1UPSCHc_ak3pWEcbVP6Q3HUCJtNqQ.jpg
FASES
As vezes sou semente
Germinada no escuro,
As vezes sou floresta
Sou silencio, sou escudo.
As vezes sou neblina
Em tempo integral,
As vezes sou reflexo
De relâmpago em temporal.
As vezes sou o líquido
Da nascente intocável,
As vezes sou o eco
Sou o grito indomável.
Luz Miranda
Caixa de Recados (18 comentários)
Você precisa ser um membro de Editora Beco dos Poetas para adicionar comentários!
Entrar em Editora Beco dos Poetas
Entre nós só existe um gênio, e esse gênio chama-se Luz Miranda.
O seu poema é consubstanciado na inspiração, sensibilidade, leveza e, principalmente, na elegância, indiferente a qualquer tipo de apelação.
Quando tive a oportunidade de ler “O Som do Silêncio”, fiquei impressionado com a qualidade e a clareza poética aplicadas. Na minha modéstia hermenêutica, a sua obra é alguma coisa que vem lá do fundo d’alma, caso contrário não seria possível facultar essa eloqüência. Concorda com esse simples mortal?
Como seu fã, espero poder conhecer todas as suas obras disponibilizadas com muita calma, pois ao longo dos meus 56 anos tenho dedicado parte deles à literatura e posso afirmar com toda segurança que você é parte integrante das grandes poetisas.
É de pessoas assim que o Beco dos Poetas está precisando, especiais e iluminadas, que trazem marca registrada, de dignidade, deferência, e, principalmente, a facilidade de manufaturar. Gostaria de registrar que tenho muito orgulho em fazer parte do seu grupo de amigos.
Para finalizar esta modéstia nota, de maneira consistente, assinalo, abaixo, uma bela frase do talentoso colega Luiz de Almeida, espero que o mesmo compreenda o motivo que me levou a subtraír sua frase, pois acredito que, neste caso, a ação foi nobre, pela importância do Sol ou da Luz, como queira.
Assim sendo, a configuração da questão “surrupiar” foi movida pela forte emoção em favor de alguém que tem um grau elevado de importância para toda a comunidade do Beco dos Poetas.
Esteja e seja e fique feliz.
Muitíssimo Feliz por tê-la entre os Meus Amigos.
Abraços e:
"ESTEJA E SEJA E FIQUE FELIZ"
O mestre da educação
por excelência da HUMANIDADE !!!
Quem busca JESUS CRISTO
encontra PAZ
Em suas sementes de fé
e esperança faz aflorar
AMOR !!!
Por meio desse AMOR,
jamais haveria GUERRA !!!
E as dores do mundo,
não seria mais sentida
na Depressão da ALMA !!!
Beijo de luz por meio da fé
e esperança no Mestre dos
Mestres
CRISTO REDENTOR
IMAGEM DA LIBERDADE
PARA O MUNDO !!!
BRAÇOS ABERTOS
ACOLHENDO O MUNDO
EM NOSSO AMADO
RIO DE JANEIRO
BRASIL !!!
AMOR E PAZ !!!
PELO SORRISO
HUMANO
SONHOS
POÉTICOS
VIDA SAUDÁVEL
E FELIZ !!!
GLOBALIZANDO
O AMOR !!!
NA HISTÓRIA VIVA
DO NOSSO PRESENTE
Claudinha Poeta
Londrina Brasil
14/10/09
SEJA BEM VINDA !
CLAUDINHA POETA
Vou te dar uma dica...na hora de postar nunca esqueça de colocar o título mesmo que seja um poema formatado pq senão aparece códigoss e fica meio esquisito
Beijossssss
Ver todos os comentários