"Sonetos da Matilde", de Alma Welt
Sonetos da Matilde, de Alma Welt
Matilde é a nossa antiga babá, atual cosinheira aqui no casarão de nossa estância pampiana (há duas décadas),uruguaia de nascimento e irmã do nosso fiel Galdério, o factotum por aqui. Extremamente dedicada à Alma, fez as vêzes de uma segunda mãe, já que esta faleceu quando Alma tinha 16 anos.
As numerações correspondem à ordem em que se encontram nos "Sonetos Pampianos da Alma", de onde foram coletados. (Lucia Welt)
Uma outra infância (de Alma Welt)
(133)
Em recentes noites desta estância,
Eu reconheço comecei a sentir medo,
Coisa que não tive em minha infância
A menos que isso seja engano ledo:
Me lembro de sair sem outros lumes,
Do meu leito para ir até o jardim
Para sentir o perfume do jasmim,
Nua a vagar com os vagalumes.
Agora, envergonhada eu confesso
Que, assustada acordo e me apresso
Em camisola ir ao quarto da babá,
Minha Matilde velha que me abraça
Sob as cobertas furadas pela traça,
E que me esperavam desde lá...
17/01/2007
Um sonho da Alma (de Alma Welt)
(138)
Decidi ser mãe mais uma vez
(há muito perdi uma criança...)
Nem que tenha que laçar como uma rês
Um peão, um macho, aqui na estância.
Mas caí na esparrela de contar
Meu plano para a pobre da Matilde,
Que só faltou com uma vara me açoitar,
Dizendo: " Bah! Como a rainha é humilde!"
"Mas não podes, tu tens que respeitar-te!
Não vás deitando com qualquer gaudério
Que podes com certeza machucar-te..."
"E depois, como livrar-te do infeliz,
Que deitar-te contigo, quem não quis?
E já temos alguns no cemitério!"
19/01/2007
Lendas do meu bosque (de Alma Welt)
(146)
O meu bosque reserva o seu segredo
Para quem tem olhos e ouvidos,
Poucos, na verdade, os escolhidos
Capazes de adentrarem-no sem medo.
Principalmente quando no crepúsculo
Principiam as fantasmagorias
E aquele vago lusco-fusco
Produzido por ocultas fadarias.
"Nada de bosque!" alertava a Matilde
"Que ali o malígno espreita
Tanto guria nobre como humilde."
"Conheci uma que sumiu e não mais vi
Para me contar que coisa é feita
Com aquelas que se agacham pro xixi..."
15/01/2007
Palavras à Matilde (de Alma Welt)
(156)
Matilde, me prepara aquele mate
Que hoje não levanto do meu leito!
Acordei com aquela dor no peito
Causada pela falta do meu Vati.
Não quero escrever e nem pintar,
E muito menos, como dizes, trabalhar,
Já que não dás valor à minha arte
E vives a dizer que vivo à parte
Longe das coisas deste mundo
Que pra ti é somente o dia-a-dia,
Os trabalhos e os deveres, sem poesia...
Mas então, Matilde, tu não vês
Que o soneto é meu labor profundo
A espelhar o mundo que Deus fez?
28/11/2006
Manhã (de Alma Welt)
(179)
Matilde, prepara-me o amargo
Que quero sair e pôr-me ao largo
Navegando ao vento na campina
Como nau que a branca vela empina.
A brisa a fluir no azul profundo,
Pode mais propício estar o mundo?
Quem foi que disse ser um sacrifício
A vida, o viver e seu ofício?
Olha aquele umbu ali ao sol
Coalhado de pássaros qual flores
A agitar-se como agitam-se os amores!
Dá-me, Matilde, uma côdea de pão
Que vou a mastigar com o chimarrão
Enquanto examinas meu lençol!*
29/11/2006
Palavras da Matilde (de Alma Welt)
(181)
Alma, volta logo, não nos deixe
Preocupados aqui com a princesa.
Sei que estás no prado como um peixe
Na água, alegria e... afoitesa.
Ontem um peão te viu pelada
A cavalgar como se não fosse nada.
Quem conta conto, eu sei, um ponto aumenta
E tua brancura é que os desorienta.
Mas olha, guria, boa prenda
Fica em casa a fazer teia de renda
Até o momento feliz de a recolher,
Pois queiras ou não tu és mulher
E o nosso destino não escolhe
Senão dever, marido e vasta prole.
02/12/2006
Estória da Matilde (de Alma Welt)
(199)
Matilde, que agora reza e reza,
Houve tempo em que abria para mim
E contou-me que dentro dela pesa
Um remorso imenso e sem fim.
Ela deixara um filho natural
Num orfanato, só, por indigência,
Mas ao buscá-lo em penitência,
Soube de algo terrível e fatal:
A criança se fora num inverno
Em que o minuano assaltara
O casarão gelado e a levara...
Então Matilde andou pelo Inferno
Por dez anos até que o Galdério
A encontrou a dormir num cemitério.
12/01/2007
Nobrezas (de Alma Welt)
(203)
Vinha um cavaleiro pela estrada
Que meu pai acompanhava desde longe,
Mas não foi buscar a espingarda
Nem ficou imóvel como um monge.
Agitou-se e me disse emocionado:
"Alma, é o Rogério, meu amigo,
Reconheço-o pelo seu jeito montado,
Como se fora cavaleiro antigo."
"Ninguém monta mais como o Rogério,
Que denotava a sua nobreza
Tanto sobre a sela quanto à mesa."
"Alma, peça pra Matilde e pro Galdério
Prepararem estrebaria e almoço
Que precisamos ser dignos do moço."
08/11/2006
La niña (de Alma Welt)
230
Quando me aproximo da estância
Pelo meu trenzinho fumegante
É que paro de pensar por um instante
E me sinto retornar à minha infância.
Ah! que bela sensação de aconchego
Ainda em pleno campo, mais humilde,
Estar de volta a um mundo de sossego
Como estava nos braços da Matilde
Minha doce babá, velhota agora,
Séria, em diligências na cosinha,
Mas cuja ternura ainda vigora
E que me espera ali no seu domínio
Como se nada estivesse em seu declínio,
Pra abraçar "sin embargo" a sua "niña"!
08/09/2006
Chuva e sol, ou La niña (de Alma Welt)
239
Rôdo, mano, vai na frente espionar
Pra ver se posso entrar pela cosinha!
Matilde já não quer acobertar
As loucas escapadas de "la niña".
Já que estou molhada e seminua,
Minha Bá achará que estou sem roupa
E a Mutti se me pega perpetua
O mito de que Alma é mesmo louca.
Com a chegada do nosso haragano,
Bah! rolar na chuva nestes prados
Com o sol em contraponto pampiano
E ter estado nos teus braços, meu irmão,
Gritando de alegria, ensopados,
Vale na certa os tapas e o sermão!
04/11/2005
A encrenqueira (de Alma Welt)
240
Esta noite farei preces no pomar
Aos deuses e também a outros entes,
Ataviei-me em panos transparentes
E por isso terei que me esgueirar.
Se preciso sairei pela janela
Descendo pela minha amoreira
Pois o medo da Matilde ainda me pela,
Que tantas vezes se planta na soleira
E tenho que evitar ser apanhada
Pois teme que me pegue algum vilão,
(que pra ela estarei mais que pelada)
E vigia sua "niña" encrenqueira
Por horas sorvendo o chimarrão
Enquanto orvalho cai sobre a roseira...
À deriva (de Alma Welt)
247
Altas horas, silêncios rumorosos
De grilos, de sapos e os estalos
Do casarão com seus nichos tenebrosos
Por onde o Tempo escorre pelos ralos.
A casa arfa, suspira, sofre e geme
Com o peso de sua circunstância.
Como um barco náufrago, sem leme,
Que já não disfarça a sua ânsia,
A ausência de piloto é um mistério...
A poetisa, o jogador e a cozinheira
E um contra-mestre com nome de gaudério
Somos pois os tripulantes que vagamos
Dentro de uma nave sem esteira,
E não sabemos mais pra onde vamos.
15/01/2007
A casamenteira (de Alma Welt)
(117)
Pintei-me nua com grande realismo,
Que ao ver a tela a Matilde até gritou:
"Guria, apaga tudo, isso é nudismo!
Já não basta viveres dando show?"
"Eu vejo que és nudista empedernida
E estás cada vez mais descarada,
Se eu fosse a tua mãe, a falecida,
Ia dar-te era mais muita palmada!"
"Eu sei, tu és guapa, mas te guarda,
Vai por mim, que sou casamenteira.
Quem quererá o que não se resguarda?"
"Se te escondes porfim te esquecerão
E haverá alguém que ainda não
Te viu pelada e pague entrada inteira..."
12/01/2007
O abraço do vento (de Alma Welt)
(104)
Matilde, não adianta me olhares
Com olhar de censura, volta e meia.
Não tem jeito, embora eu tenha ares
De princesa que às vezes titubeia.
Me queres no papel que era da Mutti,
Mestra da ordem, do mate e do tomate,
Ou mais ainda: do meu amado Vati
Que era Deus, isso nem mais se discute.
Sei que viste-me sair mais uma vez
Nua ao vento em plena pradaria,
E julgas que tua Alma desvairia.
Mas juro-te, Matilde, se assim faço
É pra sentir de novo aquele abraço
Do meu pai, guria em minha nudez...
10/01/2007
O meu Natal (de Alma Welt)
(59)
É Natal e estou como criança
Entre crianças dentro do meu lar.
Meus queridos e a casa em abastança,
Quê posso mais querer, quê desejar?
Matilde minha ex-babá se esmera
E uma mesa farta nos espera;
Devemos sentar e agradecer
Sermos dignos de ter o que comer.
Mas quanto, eu pergunto, apenas quanto
Merecemos a fartura e o privilégio?
Por quê perdura em mim este espanto?
Então, Patrícia, como um sortilégio
Toca meu rosto refazendo o encanto:
O Natal basta ser amarmos tanto...
25/12/2006
A abantesma (de Alma Welt)
No riacho que produz minha cascata
Costumo vadear erguendo a saia,
Ou “vadiar”, diz Matilde caricata
A frisar minha brancura que desmaia.
Ou então, isto sim, faz desmaiar,
Pois pudica que é, quer alertar-me
Ou prevenir que o povo vai acreditar
Qu’é d’uma abantesma este meu charme.
Mas estou mais inclinada ao nu total
E há muito que com Rodo ou sozinha
Sou eu a alva ninfa em meu quintal,
Lenda que o povo ama e perpetua,
“Visagem” sou da branca patroinha,
Que muito hei de vagar à luz da lua...
08/06/2005
Caixa de Recados (6 comentários)
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Letra & música de Luiz Alberto Machado
Quero ficar no seu coração
E assim poder sonhar
Toda aventura que pintar da emoção
Todo fervura que brotar da sua mão
Para iluminar a reticência que aprumou a minha vida
E um dia ser feliz e nada mais
Quero ficar no seu coração
E assim me agasalhar
Do frio impune que semeia a solidão
E feito imune repetir a sensação
Que vai para lua na volúpia mais fervida
E um dia ser feliz e nada mais
E quando o jeito de você virar absoluta adoração
Será o véu perfeito e a ternura abraçará minha ilusão
Quero o meu destino a confundir-se com o seu
E sermos um, o que a sina prometeu
E o que sobrar de nós será um ninho verdadeiro
E um dia ser feliz e nada mais
©Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. In: Primeira reunião. Recife: Bagaço, 1992.
www.luizalbertomachado.com.br
Esta canção está na Garagem do Domingão do Faustão. Para conferir e votar é só acessar;
http://domingaodofaustao.globo.com/Domingao/Garagemdofaustao/0,,16989-p-V1065104,00.html
Ah, um convite: estou no Domingão do Faustão. Para conferir e votar é só acessar: http://domingaodofaustao.globo.com/Domingao/Garagemdofaustao/0,,16989-p-V1065104,00.html
Beijabrações & tataritaritatá!!!!
www.luizalbertomachado.com.br
Letra & música de Luiz Alberto Machado
É preciso respeitar melhor a vida
no amor que traz a paz que é tão bem vida.
Amar para se ter além do passional
e o coração valer o ser humano universal.
É preciso respeitar as diferenças
e não se equiparar ao que é hostil nas desavenças.
Lutar contra a mantença desigual
que forja o algoz na força do poder irracional.
Se entregar agora, todo dia e a noite inteira,
testemunhar assim as coisas verdadeiras.
Colher a lágrima do olhar mais desolado
para irrigar a sede do carinho devastado.
É preciso ter no olhar a flor da vida,
trazer a luz do sol nas mãos amanhecidas.
E perceber o amor no menor gesto natural
para valer o sonho mais presente mais real.
Se entregar agora, todo dia e a noite inteira,
testemunhar assim as coisas verdadeiras.
Colher a lágrima do olhar mais desolado
para irrigar a sede do carinho devastado.
E afinal poder sorrir
como quem vai feliz viver,
a manter a crença e o seu proceder na paz.
Semear a vida no ideal de colher
o que virá depois
pra ser alegria imensa para um, mais dois, mais!
Viver a vida pelo que foi e será, é e será!
© www.luizalbertomachado.com.br
Veja o clipe desta canção acessando http://www.youtube.com/watch?v=GxzlihHqIrI ou baixe em mp3 acessando http://tramavirtual.uol.com.br/artista.jsp?id=24909