Posts do Blog de Francisco Luís R. Fontinha Marcados 'Mussulo' (7)

A geada da noite

Sentava-se sobre a geada da noite, e na sombra dos cigarros desenhava sorrisos junto ao peito, as mão encolhidas no bolso do sobretudo, e o meu pai adormecia num banco de jardim a sonhar com melros que na sua infância costumavam poisar no quintal,

 

Um pedacinho de sincelo regressava do rio e embrulhava-se nos seus setenta e três anos, cansado, velho, inconformado por ter deixado Angola, o melro olhava-o e ele em calções corria nos socalcos das tardes de outono, e quis o…

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Adicionado por Francisco Luís R. Fontinha em 13 setembro 2011 às 20:41 — Sem comentários

O lençol da manhã

O lençol da manhã

Poisa suavemente nas acácias,

Uma menina tropeça na sombra de um guindaste,

E um petroleiro apressado

Faz-se ao mar,

Arregaça as mangas e evapora-se entre os ulmeiros,

A menina sorri para a janela das nuvens

E um relógio de pulso adormece nos olhos da menina,

 

O lençol da manhã

Que se esconde na algibeira do pequeno-almoço,

E um papagaio de papel nos céus de Luanda,

O cacimbo, o Mussulo, os…

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Adicionado por Francisco Luís R. Fontinha em 13 setembro 2011 às 18:31 — Sem comentários

A esferográfica

Mal consigo pegar na esferográfica, poiso-a e levanto-me, e encosto-me à janela virada para o rio, ao longe entre os socalcos da noite uma luz chama-me, olho-a nas palavras simples que alimentam os girassóis da manhã, os figertips “simple wordas” começam a descer lentamente encosta abaixo, puxo de um cigarro engasgado nos ponteiros de um relógio esquecido na parede da sala, o fumo ergue-se e desaparece pelo vidro da janela, e repetidamente mergulho nas minhas palavras, brinco com a janela e…

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Adicionado por Francisco Luís R. Fontinha em 10 setembro 2011 às 20:17 — Sem comentários

Os sonhos do menino Ataíde

Nunca li um livro, O que são livros, Pai?, e tão pouco sei o que são livros, diz-me que é tudo mentira, Pai, É tudo mentira, Filho, os livros não existem, os livros somos nós sentados em bancos de jardim, Verdade, Pai, sim, Filho,

 

E uma menina que passeia junto ao mar, e eu seguro a mão do meu pai na baía de Luanda, e perguntava Levas-me ao mar, Pai?,

 

Ao mar, Filho?, sim, pai, Ao mar, O mar não existe, filho, Não existe?, Não, filho, não existe, Mas tu…

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Adicionado por Francisco Luís R. Fontinha em 27 agosto 2011 às 18:59 — Sem comentários

De mim caiem silêncios nos teus lábios

E quando o teu corpo se extingue na tarde, e sobre mim,

Pausadamente caiem as gotinhas de suor da tua pele, nos lábios das nuvens um albatroz olha-nos e ao fundo do corredor fica o mar, a boca das horas em beijos atrevidos ao pêndulo do relógio estacionada na parede da sala, e após a música que nos transporta para o santuário de Fátima as seis badaladas, e no quarto procuro os pedacinhos de ti, do mar chegam-nos sorrisos de crianças e vozes de mãe, e a minha mãe chama-me na ilha do…

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Adicionado por Francisco Luís R. Fontinha em 26 agosto 2011 às 19:08 — Sem comentários

E ainda não tinhas nascido

E ainda não tinhas nascido, e o céu de Luanda tão azul e tão límpido, e as nuvens pareciam pedacinhos de algodão, e ainda não tinhas nascido, e o mar calmo do Mussulo, os coqueiros, as mangueiras e bananeiras, e ainda não tinhas nascido, e a minha primeira entrada numa tenda de circo, e não, não foram os palhaços que me alegraram, e não, não foram os trapezistas que me contentaram, e não, não foram os animais que me fascinaram, e ainda não tinhas nascido, e foram a luzes, sim, precisamente…

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Adicionado por Francisco Luís R. Fontinha em 24 agosto 2011 às 19:46 — Sem comentários

O caixeiro-viajante

A terra húmida da tarde engole a sombra do mendigo estacionado nos caixotes do lixo da cidade, uma árvore que poisa na neblina dos carris do comboio,

O meu pai em calções construía círculos no pavimento térreo do bairro e debaixo das árvores a Vespa em brincadeiras com o vento, a cidade submersa na escuridão dos candeeiros de néon e os comboios em linha recta furando as horas que na pontualidade da serra a encosta escorria sobre o rio corneado pelo mar, os cornos do boi que passeia…

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Adicionado por Francisco Luís R. Fontinha em 2 julho 2011 às 16:55 — Sem comentários

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