CARTA DO OUTONO

Rangel Alves da Costa*


Aqui onde estou, nessa noite de muitas recordações, o clima ainda está entremeado de correntes de calor e de ar frio. Às vezes me bate um vento mais forte, próprio do anoitecer, embaixo dessa lua cheia que brilha no céu de poucas nuvens e muitas estrelas. Estou triste, bem sei, mas a minha história, meu percurso pelas horas e anos dessa vida nunca foi marcada por grandes alegrias. Por isso costumo estar triste, bem sei.
É dessa tristeza que me marca e me faz moradia que os outros, com razão, tecem suas considerações sobre o que sou e como sou. Dizem que quando saio por aí a passear, entre as estações do verão e do inverno, geralmente de 22 de setembro a 21 de dezembro em alguns lugares, e de 22 de março a 21 de junho em outros, a primeira coisa que faço é amarelecer e fazer cair as folhas das árvores e outras plantas, dentre outras coisas que dizem. Me criticam porque faço isso e sou assim, mas tudo tem uma razão de ser e explicarei.
Certa vez, caminhando nessas vastidões cumprindo meu destino, passei por um belo e florido jardim e avistei plantas lindas, de vários tamanhos e espécies, mas todas pareciam viver em palácios, distantes umas das outras, sem ter amizade alguma, num exacerbamento de egoísmo que fazia com que cada uma visse a outra como reles plantinha de canteiro de rua abandonada. Era linda a paisagem, mas era odioso de se ver o salto alto da roseira e o pedantismo da margarida.
Segui em frente e fui pensando em modificar aquela situação, em trazer humildade, compartilhamento e amizade entre aquelas plantas, nativas ou exóticas que fossem. E assim, já tendo idealizado o que iria fazer, retornei no ano seguinte e apliquei-lhes um castigo que foi mais uma lição, fazendo vê-las que a beleza que lhes foi concedida era tão frágil quanto às suas flores diante da tesoura do jardineiro.
E fiz mais, pois decidi que a partir de então, como forma de que aprendessem que todas são iguais na beleza e na fragilidade, assim que fosse o meu tempo de passar por ali, todas teriam de refletir mais sobre a vida, e nessa reflexão ir jogando fora todo o luxo em demasia, todo aquele aspecto de infinita superioridade, amarelando suas folhas até caírem, perdendo suas pétalas já sem perfume, para depois renascerem novamente belas e sem discriminação, que é a verdadeira essência daquela e toda natureza, inclusive a humana.
Insistem em dizer que sou sinônimo de decadência, de esmorecimento, de fraqueza, simplesmente porque moro ao lado do verão e do inverno, tidas como estações que possuem objetivos bem definidos na vida. Mas não sou o que dizem, pois sou o próprio reflexo do que as pessoas são, com instantes de grande prosperidade e outros de carência, com instantes de intensa alegria e outros de esmorecimento espiritual, com instantes para a fé e adoração e outros para a negação e o pecado. É assim que sou, também reflexo das muitas contradições de tudo que sobre o mundo tem existência.
Dizem também que sou chato, inseguro e indeciso porque aceito que sobre mim caia ora a chuva incessante ora o sol escaldante. Essa minha instabilidade climática atrapalha a vida de muitos, dizem. Na verdade, assumo minha culpa, porém não acho que esteja agindo errado, pois o que procuro fazer é simplesmente atender a todos que precisam de sol ou de chuva nos seus afazeres cotidianos.
E é fácil constatar que tenho razão: uma plantação não sobreviveria quatro meses seguidos sem a água da chuva para molhar as raízes e fazer brotar os frutos, do mesmo modo as pessoas precisam de sol para enxugar as roupas, para saírem às ruas, para passearem e tomar banho nas praias. Daí que o que faço é não tender somente para um lado ou para o outro, fazendo chover num tempo e chamando o sol noutro instante. O que não seria lógico era trazer os dois ao mesmo tempo. Se assim fizesse, com certeza diria que o outono enlouqueceu.
Contudo, não costumam apontar minhas qualidades, mas nem por isso deixo de cumprir meu papel sobre a terra, ajudar a natureza e o homem e fazer com que a vida tenha um curso normal. Geralmente esquecem que é na minha época que as terras e os jardins são limpos e preparados para novas plantações, que faço as folhas caírem para que renasçam com mais vida e beleza, que faço com que as folhas de algumas árvores adquiram umas lindíssimas sombras avermelhadas, que faço as temperaturas ficarem mais amenas, que faço os dias e as noites terem a mesma duração, que é na minha estação que ocorrem as grandes colheitas, pois as frutas já estão bastante maduras e começam a cair no chão. E o que é para mim o mais importante: chamo o inverno e peço que avise à primavera para trazer as cores e os perfumes que a vida tanto precisa.
Sou orgulhosa e digo mais: não sou apenas uma estação, pois sou a mais bela das quatro estações de Vivaldi. Procure me ouvir agora e reflita, sinta a natureza viva, frutos maduros e folhas caindo no jardim de sua casa. Isto também é sinal de que haverá sempre renascimento em sua vida.



Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com.

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