Naquela noite chovia fogo. Eu estava certo de que era fogo. Pareciam lágrimas, mas era fogo. Caíam como gotas de um choro incessante, convulsivo. As gotas de fogo batiam na vidraça da janela, deixando um rastro de luz pelo caminho, como um pingo de água quando desliza por um vidro, fazendo aquele percurso tortuoso, meio indeciso, mas com destino certo.
Eu me sentia como se estivesse sonhando. Não sei, tudo parecia tão nítido. O Morro do Cruzeiro à frente da janela do meu quarto estava lá, iluminado pelas gotas de fogo. O pomar do lado esquerdo da casa, descendo em direção ao ribeirão, também estava lá. Tudo parecia em seu lugar, o galinheiro no fundo do terreno, ao lado do curral, até as galinhas assustadas com aquela chuva que queimava toda a grama do quintal.
Já passava de uma da manhã e eu ainda estava acordado. Lembrava das palavras da minha mãe, dizendo com voz chorosa, tentando esconder o rosto vermelho e os olhos cheios dágua, que iria até o arraial comprar arroz e voltaria cedo para fazer o almoço. Eu estava sentado no lugar que mais gostava, debaixo da mangueira. Era enorme e eu a conhecia como a palma da minha mão. Subia e descia pelos seus galhos como um felino Era capaz de passar quase o dia inteiro lá em cima. Ela era o meu refúgio, o meu lugar secreto. Uma criança finge não entender nada, mas sabe tudo o que acontece à sua volta, à sua maneira, mas sabe. Meu pai bebia muito, poucas vezes o vi sóbrio. Desde que me entendo por gente, saía pela manhã e, quando voltava, era aquele inferno. Minha mãe apanhava todo dia, calada. Sofria com a surra e com a minha tristeza diante daquilo tudo. Nem lembro mais quantas vezes me escondi no alto da mangueira. Lá de cima assistia a tudo e chorava baixinho. E foi ali, debaixo daquela mangueira, onde a vi pela última vez. Ela terminou de falar, seguiu rápido pelo caminho até a porteira, destrancou-a, saiu e ao se virar para fechá-la, me olhou profundamente; como uma despedida angustiada, quando as pessoas se olham, mas não conseguem se falar. Esse sentimento era algo que eu não entendia, um frio corria a minha espinha de cima a baixo, deixando-me zonzo. Mas continuei ali sentado, meio sem forças, olhando-a desaparecer na estrada barrenta, que ia para o arraial. Era uma sensação estranha. Mas à medida que o tempo passava e eu me distraía com alguma coisa aquilo já não me preocupava tanto.
Enquanto eu riscava o chão com um graveto, várias imagens dançavam na minha cabeça. Foi então que veio a imagem do meu amigo Daniel. Tinha passado por uma experiência terrível, a morte de sua mãe. Ele mesmo tinha encontrado o corpo dela, uma semana depois de desaparecido. Estava inchada, boiando no ribeirão, deformada, com partes comidas pelos peixes e com buracos no lugar dos olhos. Lembrou-se que ela sempre o proibira de ir até lá tomar banho. Então por que ela estaria ali, presa naquelas plantas aquáticas, boiando inerte? Daniel começou a chorar sem parar, subiu o caminho que ia até a estrada e não parou de correr enquanto não chegou em casa, quase desmaiando. Algum tempo depois descobriu que sua mãe tinha ido até lá procurá-lo, pois há horas o esperava para o almoço. Como ele não aparecia, teve a idéia de ir até o ribeirão encontrá-lo. Na beirada do barranco escorregou e, como não sabia nadar, foi tragada pelas águas traiçoeiras do ribeirão. Depois disso, ele começou a se sentir culpado e deu para contar histórias. Reuníamo-nos quase todas as noites. Quatro, cinco, às vezes até mais garotos. Ficávamos arrepiados, ouvindo atentamente sua falação. Algumas eram tão incríveis que em diversas ocasiões pedíamos para ele repeti-las. Eram histórias que só ele conhecia e não constavam de nenhum livro escolar. Uma delas era a de um curandeiro druida. "Há mais ou menos mil e duzentos anos, quando o arraial nem pensava em existir, aqui vivia uma grande tribo druida. Um povo atrasado, mas que tinha alguma cultura graças à sabedoria de seu curandeiro. Homem de grande altivez e experiência, que quando jovem atravessou o grande oceano e lutou nas famosas guerras de San Martin. Na volta, vitorioso, trouxe como presente do povo de lá os grandes elefantes de San Martin, que ajudaram na construção de todos os templos druidas. Para explicar porque não havia mais elefantes por aqui, Daniel dizia que de tanto trabalharem e de saudade da terra natal, eles foram morrendo aos poucos. Um dia o curandeiro foi chamado pelo rei druida, pois não passava bem. O curandeiro tentou de tudo: ervas, rezas, magia. Nada adiantou. O rei só piorava. O povo, furioso, queria resultados. Mas foi tudo em vão. O rei morreu. Para escapar da morte, o curandeiro druida falou para o povo não se preocupar porque havia trazido das terras de San Mantin a fórmula da ressurreição. Para isso, era preciso se construir urgentemente um mausoléu, colocar o rei lá dentro, lacrá-lo e só abri-lo após serem colocadas no morro mais alto da região três pedras do tamanho de uma casa, formando um triângulo. Assim o trabalho começou. A primeira pedra chegou lá em cima oito anos após a morte do rei; a segunda, depois de dezesseis anos; e a última quatro anos após a morte do curandeiro, que morreu de velhice”.
Ainda hoje as pedras podem ser vistas, daqui de onde estou sentado, no alto do morro da ressurreição. Já era noite alta quando desisti de esperar minha mãe, ali debaixo da mangueira, e subi para o meu quarto. Meu pai já tinha chegado. Ainda cedo havia passado por mim cambaleando. Agora era eu que passava por ele, caído no chão da sala. Da janela do meu quarto continuei esperando. Talvez minha mãe voltasse depois da chuva de fogo, mas a impressão que eu tinha, era de que o mundo estava acabando

Esse texto está registrado na Biblioteca Nacional.

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Tags: literatura

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